Patrícia mais uma vez olhou-se no espelho, mas agora seus olhos perdiam-se num passado distante. No reflexo da porta projetado pela sala contígua, desenhava-se o perfil de Benvindo que se afastava, talvez à procura da juventude que julgava perdida.
Talvez fosse a culpada de sua fuga: aos poucos negligenciara a aparência, o bem viver, o relacionar-se com os amigos e ao próprio lugar no centro da vida. Não, ela era só a dona de casa que o acompanhava nos jantares, nas festas da empresa, nos compromissos sociais.
Talvez não fosse nada disso, pensou. Não passasse de um encanto transitório por uma mulher muito mais jovem, o impulso fantasioso de um homem de meia-idade tentando escapar do tempo. Afinal, não acontecia assim com tantos casais?
Mas se houvesse uma saída, uma maneira de alterar essa situação, de modificar o rumo, esse consenso social? Ela poderia reinventar-se, tornar-se uma mulher ativa e participante de uma nova sociedade. Uma realidade em que ela fosse a protagonista.
Então mostraria a todos, e também a si mesma, que ainda possuía seus encantos e vigor. Participaria do concurso de dança. Vestiria a suavidade da valsa ou a vertigem do tango. Ela seria a estrela, fotografada, revelada sob as luzes da ribalta. Era a realização do sonho, a virada tão desejada.
O convite já estava em cima da mesa.
Por fim, Patrícia afastou-se do espelho, deu alguns passos pelo velho parquê, torceu o salto fino e esbarrou no capacho. Precisou apoiar-se na maçaneta da porta e chamou o táxi.
Em pouco tempo, estaria lá entre os seus pares, magra e linda, revivendo um passado que não fora seu.
O táxi chegou. O porteiro subiu. O elevador parou no andar de Patrícia. Tocaram a campainha. Ligaram.
Patrícia não atendeu.

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