vento
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Mãe no jardim
Às vezes, lembro a velha janela de veneziana e postigos verdes. Observava os rodamoinhos, folhas que giravam numa agitação festiva e alguns sacos plásticos efetuavam rápidos vôos para mergulharem em seguida na calçada ou no meio do rua. O vento fustigava a janela. A tarde era melancólica. Minha mãe passeava entre as dálias, diversas begônias, umas…
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O covil
Saímos às escondidas, desviando dos pingos da chuva, batida intermitente na pele. Causava-me certo prazer, misturado ao temor desconhecido, de que alguma coisa não andava bem. Era frio e escuro e as ruas desertas, como se todos se refugiassem em suas casas, temerosos de uma investida agressiva, da qual não havia defesa. Apenas as palavras…
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As pedras
Até as pedras desta cidade sabem onde são pisadas. Sabem do resvalar da sola em suas costas, a biqueira do sapato, a ponta do salto. Nada fica impune. Mesmo as formigas amortecem com a queda, só elas ficam ali presas e sepultadas, até que um arqueólogo surja para investigar seus vestígios. Às vezes, me sinto…
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A visita
Chegar a casa, percorrendo as ruas estreitas, de paralelepípedos irregulares, batida incerta no peito, olhos febris. Difícil saber o significado da visita, entender a expectativa da hora, o aperto de mão. Minha mão na do meu pai, caminhando orgulhoso, torcendo os pés nas pedras incólumes. Tropeçando, olhos pairando nos céus, gestos hesitantes, braços indagando inquietos.…
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A fresta
Não fecha a porta. Deixa uma fresta, mesmo que o vento balance o quadro na parede, mesmo que o frio se intensifique, mesmo que o olhar se perca em raros caminhos. Pensa no teu olhar ávido por buscas, saídas e questionamentos. Pensa nos momentos em que ficaste assim, sem qualquer contato, como se usasses os…

