• Nosso barco quase a esmo

                                                    Às vezes me pergunto o porquê das pequenas rusgas. Não falo das grandes intolerâncias,  dos descalabros das discórdias, das quase tragédias.       Penso nos pequenos desentendimentos, nas mágoas secretas por presumíveis falhas de quem nos quer bem, nos silêncios provocados para evitar a verdade, porque às vezes a pós-verdade é o que interessa.              Que importa que o…

  • Esperar

    Esperar. Estar à espera de algo, ter esperança. Há tantos significados para o verbo, além destes citados. Há, no entanto, a possibilidade da espera ser somente uma espera, nada mais. Um atentado à lógica, ao senso estabilizado, ao padronizado, ao comum. Que fazer, se não esperar pela aventura de ser feliz? Que fazer, se não…

  • As cores de abril

    “As cores de abril, os ares de anil, o mundo se abril em flor. E pássaros mil, nas flores de abril, voando e fazendo amor.” O poeta Vinícius de Moraes identifica nestes versos, o início do outono, numa perspectiva de beleza e paixão, na qual a natureza tinge suas cores, dando voz à poesia. É…

  • E a dor da saudade?

                Muitos poetas, escritores, músicos e filólogos já reviraram de ponta-cabeça a palavra saudade. Um sentimento melancólico causado pela ausência de pessoas a que se estava esfetivamente muito ligado.              O Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa mostra o termo saudade oriundo do latim “solitate”, isolamento, solidão, através das formas “soidade” e “suidade”, soedade , suydades , até à saudade na atualidade.             Como falar…

  • De cara com o monstro

    O monstro se aproximava devagar. Ninguém sabia de onde viera e qual o seu objetivo. Todavia era um monstro singular. Um monstro que se moldava de acordo com nossos desejos ou esperanças, às vezes tentativas de mudança.  Certa vez eu caminhava pela avenida que atravessava a cidade de ponta a ponta, o trânsito já diminuira…

  • Sorri

    Quando passava rapidamente pelos sebos de revistas, livros e todas quinquilharias, gostava de procurar aqueles discos de vinil antigos, principalmente os de coletâneas musicais. Às vezes, nem tão famosas, mas surpreendentes pela qualidade, embora ainda intactas nas caixas. Num desses passeios, percebia que as coisas mudavam de repente, que os vinis não me pareciam o…

  • Um amontoado de ossos

    Um amontoado de ossos         Percebia um corpo franzino que se esgueirava rápido, por entre as árvores. A noite já se aproximava e o parque, aos poucos, ficava deserto. De repente, ela sentou num dos bancos, de súbito, como houvesse se assustado de alguma coisa. Eu podia vê-la de longe, e por um momento, pensei fotografá-la com…

  • Iolanda

    Iolanda desceu as escadas lentamente. Na rua, um silêncio absurdo parecia isolar a praça do resto do mundo. Espiou pela porta do prédio e viu o ambiente amplo, completamente vazio. Sombras de árvores deitavam em bancos de pedra. Alguns caminhos irregulares. Afastou a porta devagar, deslocando-se em ritmo lento pela calçada. Estava sôfrega.  Um cansaço…

  • Sedução

    Sedução Saiu à noite, pelas vielas escuras. Um impulso indefinido. Talvez sentir-se vivo. Impulso, pulsão, compulsivo. Tudo que milhares de psiquiatras, psicólogos, psicanalistas, até autores de autoajuda já tinham informado. Sabia, entretanto que precisava seguir o ritual. Um sentimento de busca, uma verdade inconteste que latejava no peito e respondia no sexo, o degrau inferior…

  • Duas sensações jamais serão iguais Às vezes, pensamos que podemos repetir o passado e viver aqueles momentos que julgamos felizes e únicos.  Entretanto, nada pode ser revivido, nada volta. Não voltam os momentos felizes, nem quaisquer lembranças se tornam acontecimentos novamente.  O pensador Heráclito dizia que ninguém pode entrar no mesmo rio, pois quando nele…