Uncategorized
-
Margem estreita
Aos poucos, quase uma coisa dormente, de poucos pingos e respingos. Aos poucos, ondas de frio e chuva miúda, mas forte. Aos poucos, transito por entre as poças, a água latente molhando o tênis, o brilho aqui perto, nos pés, o esfumaçado lá longe, na neblina que avisto. Caminho por entre árvores, caminhos tortuosos, obscuros.…
-
Faz-se um silêncio
Faz-se um silêncio lá fora. Parece que, de repente, o mundo parou. Nem um som humano, nem animal, nem de qualquer máquina. Faz-se um silêncio aqui dentro. Um batimento tranquilo, quase meditação. Nada há que incomode, que impressione, que agite. Faz-se um silêncio de água parada. Um rio que não corre, um mar que não…
-
Não me chama
Não me chama, nem me ouve, se não te peço. Não procura, nem me espera, se não absorves a dor. Não chora, nem ora, nem suspira. Nada se empilha em traços desfigurados, em bocas obtusas, em olhares inadequados. Nada inspira a completude dos sentimentos, se não vislumbras por dentro, se não observas o íntimo, se…
-
Mãe no jardim
Às vezes, lembro a velha janela de veneziana e postigos verdes. Observava os rodamoinhos, folhas que giravam numa agitação festiva e alguns sacos plásticos efetuavam rápidos vôos para mergulharem em seguida na calçada ou no meio do rua. O vento fustigava a janela. A tarde era melancólica. Minha mãe passeava entre as dálias, diversas begônias, umas…
-
O albatroz e o voo interrompido
Às vezes, observo as aves sobrevoando a lagoa ou mesmo em voos rasantes nas dunas irregulares do Cassino. No céu, algumas em relevante altitude, mas todas com uma elegância que nos encanta e enche o coração de esperança. Lembro então da lenda do albatroz, que seguia o navio de Fernão de Magalhães, auxiliando-o na rota,…
-
Folhas
Folhas caem lentamentePairam algumas, seguem devagar a correnteParecem sonhar e mergulham como plumas no ar Folhas caem lentamenteTrazem consigo olhares e nostalgiaTalvez de um passado recenteOu de uma vontade vazia Folhas caem lentamenteAproximam-se do chão e das raízesPesam na grama impunimenteOu se debatem em rodamoinhos, às vezes Folhas caem lentamenteTransformam a realidade mais bonitaNão importa…
-
A bomba e a aeromoça gaúcha
Meu amigo tinha por hábito externar qualquer pequeno problema que o acometesse. Às vezes, uma mudança abrupta no seu estado psíquico, como uma melancolia, uma vontade de se afastar de onde estava ou simplesmente um pequeno ruído que o incomodava. Via de regra, sabíamos que reagia com certo exagero às circunstâncias, mas respeitávamos o seu…
-
Quando vemos?
Quando vemos? Há momentos em que é preciso parar, respirar, olhar sem filtro, sem visgo, sem rastro. Há momentos em que os passos quase se inspiram na brisa, se apequenam nos rodopios da areia, na poeira que sobe e brilha tão nítida, que quase percebemos os caminhos. Há momentos em que não se corre mais,…
-
O covil
Saímos às escondidas, desviando dos pingos da chuva, batida intermitente na pele. Causava-me certo prazer, misturado ao temor desconhecido, de que alguma coisa não andava bem. Era frio e escuro e as ruas desertas, como se todos se refugiassem em suas casas, temerosos de uma investida agressiva, da qual não havia defesa. Apenas as palavras…









