textosdogilson
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Contar estrelas
Dou alguns passos em direção à porta. Lá fora, é tão íntimo quanto aqui. O quintal sombrio, as estrelas pontilhando o negrume do céu sem lua. Percorro as vielas estreitas, esgueirando-me entre os canteiros mal desenhados, com a cabeça para o alto. Sinto uma dor no pescoço, mas insisto na manobra radical. É bom ficar…
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Sorri
Quando passava rapidamente pelos sebos de revistas, livros e todas quinquilharias, gostava de procurar aqueles discos de vinil antigos principalmente os de coletâneas musicais. Às vezes, nem tão famosas, mas surpreendentes pela qualidade, embora ainda intactas nas caixas. Num desses passeios, percebia que as coisas mudavam de repente, que os vinis não me pareciam o…
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Registros
Não sou de guardar muitas coisas. Um texto aqui, um chaveiro ali, uma fotografia lá. Há coisas que não se guarda, na verdade, se resguarda do extravio. Há outras que nos parecem uma espécie de registro, uma lembrança de um acontecimento importante em nossas vidas, uma informação do passado, uma memória. Guardo alguns recortes que…
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A vida andava devagar
Como morava próximo à Praça Saraiva, meu pai às vezes tomava o bonde, que saia do abrigo, via Aquidaban, dobrava na linha nova e prosseguia pela Colombo. Morávamos em frente à Padaria União e lembro bem, meu pai cevava o mate, apanhava a garrafa de leite da soleira da porta, comprava o pão de quilo,…
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Viver a história
Pensar num livro que povoou a minha infância me faz reviver sensações intensas, talvez saudade do período das descobertas, de aguçar a curiosidade em torno de qualquer tema. E, no caso, um tema de história, uma história romanceada, como se fazia na época. Trata-se do livro “Tiradentes e o aleijadinho: as duas sombras de Ouro…
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As meninas da Socoowski
São lindas, feias, morenas, loiras, negras e sararás. São pobres, jovens; jovens demais. Aparentam entre 14 e 21 anos. Não se sabe precisar ao certo. Afinal, permanecem ali, na beira da calçada, sem sonhos ou direções. Seus encantos e encantamentos se foram há tempos, na sarjeta da rua sem meio fio. Por certo, há pouco…
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O verão de nossos dias
Tanto se fala no verão. No sabor das águas, no saborear da brisa, quando não dos ventos do Cassino. Acima de tudo, o bate-papo com os amigos. Verão é isso. Jogar conversa fora, sem muito compromisso. Talvez seja mais do que um andar ao léu, ou margear a praia de bicicleta nos fins de tarde.…
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O outro
Estava assim à procura do tempo e o avistei sozinho. Parado que se encontrava à porta da igreja. Barba longa, desleixo involuntário. Pele escura, encardido. Sol a pino, um boné velho, virado para o lado, uma gosma escorrendo no canto da boca entreaberta com dentes falhados, amarelos, mastigando levemente a vida. Nos olhos, uma fuga…
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Os números de 2014
Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2014 deste blog. Aqui está um resumo: Um bonde de São Francisco leva 60 pessoas. Este blog foi visitado cerca de 920 vezes em 2014. Se fosse um bonde, eram precisas 15 viagens para as transportar. Clique aqui para ver o relatório…
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Seria a nação de chuteiras, a Geni?
A nação de chuteiras é dos errantes, dos pobres, marginalizados, dos quem não tem mais nada. Dos que não tem porvir. Como a Geni do Chico, dá-se assim, desde menina; é um poço de bondade mas é feita pra apanhar. Um dia surgiu a copa, e a seleção acionada. A cidade clamou desesperada, vai Nação…