Quando os dias passares e já não precisares mais as horas, nem os prazos.
Quando as noites, mesmo quentes, forem frias e vazias.
Quando o mundo parecer escuro, cinzento e sem graça.
Quando as dores humilharem tua identidade e a esperança se expandir lentamente para fora da janela, ao vento, como as cortinas que insistem em voar.
Quando o mar já não acalentar teus pés e as ondas mais rugirem do que te acariciarem.
Quando o céu se tornar apenas nuvens e não vires mais a intensidade do sol.
Quando a areia da praia te queimar os pés e os passos te parecerem apenas resistência às forças que se opõem.
Quando os sons já não forem os mesmos e a música não entoar na mesma cadência.
Quando a vida escoar aos poucos sob teus dedos e teus sonhos.
Lembra que estarei aqui, do mesmo jeito, com as mesmas dores, sob o céu obscuro, as noites vazias e frias, os passos esparsos e inseguros, as vozes fragilizadas e a vida se transformando.
Estarei aqui, e mais do que um, seremos dois, quando dois seguram a rede, o peso se torna mais leve, mais suave e passível de nossas mãos. Não te esqueças, dois, somos muitos e todos os sonhos talvez tenham uma nuance aromatizada, levemente colorida, mas presente como as nuvens, que ora disfarçam os pingos, abrem-se no céu e surge o arco-íris.

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