Margem estreita

Aos poucos, quase uma coisa dormente, de poucos pingos e respingos. Aos poucos, ondas de frio e chuva miúda, mas forte. Aos poucos, transito por entre as poças, a água latente molhando o tênis, o brilho aqui perto, nos pés, o esfumaçado lá longe, na neblina que avisto. Caminho por entre árvores, caminhos tortuosos, obscuros. Descubro dentro de mim, um medo estranho de que precise voltar sem enfrentar. De que precise me afastar, mesmo nesta chuva que aumenta e preenche espaços, invadindo ruas e casas. Não, tenho que vencer essa parte. Avistar um brilho, pequeno que seja, mas que me absorva por dentro, muito mais do que a chuva que molha o abrigo, muito mais do que a neblina ao longe, acinzentando o cenário. Este brilho, esta luz, estas raízes que agridem meus pés, minhas pernas que se entortam entre troncos quebrados, cortados, aviltados. Mas aqui, a água que escorre não enlameia, ao contrário, limpa e aumenta a expectativa do encontro. Com quem? Comigo, com a plenitude de meus sentimentos e desejos, com o luzir do céu na clareira, margem estreita para a vida.

Deixe um comentário