agora

Caminhei pelas mesmas ruas tão familiares, quase um quintal de casa. Nada que desperte muita atenção, a não ser o trânsito, às vezes intenso, que pede algum cuidado. Às vezes, um grupo mais homogêneo para desviar na calçada. Uma bicicleta desavisada, uma moto que dobra na esquina em alta velocidade, um ônibus que quase derrapa na parada. Nada que mude a rotina. Nada que absorva olhares ou pensamentos. Mas hoje andei pelas mesmas ruas e já não me pareciam tão familiares nem conhecidas. Percebi as lajotas quebradas, os espaços em concreto, vazios, outras de modelos diferentes, dispersos, pequenas descidas, grandes embaraços. Eram outras as calçadas. Também as ruas não eram mais comuns, nem pareciam as mesmas. Eram povoadas sim, mas de figuras estranhas e desconhecidas. O mundo ficou desconhecido, o quintal de casa desapareceu e os obstáculos estavam mais próximos ou ausentes, porque não os compreendia como tal. Eram só obstáculos e pareciam coisas do passado. Agora é agora. Somente agora, sem resquícios de momentos, de sentimentos, de sensações. Só agora. Um agora vazio, talvez sem futuro, sem história pra produzir, sem desejos, ilusões ou expectativas. Só um agora. Para viver. Agora.  

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