A civilização

Atravesso a rua rapidamente. Sinto brilhos no asfalto. Luzes de faróis distantes que aproveitam o sinal. Dou mais uns passos, subo o meio fio, a pedra azulada, fria e rugosa onde torço o pé, que parece descalço. Atravesso a calçada da praça, me embrenho entre sombras e luzes esparsas, folhas negras no chão, pequenas calçadas, copas de arvores, chafariz. Me afasto das luzes, quero as sombras, quero o breu. Vejo alguém que passa ao longe. Afasta-se. Uma pessoa de bicicleta se aproxima. Faz voltas, mas também se afasta. Olho para o outro lado da praça e não a vejo mais. Tudo fica mais escuro. Silêncio. Um silêncio bruto e intenso. Nada balança, nada se move, nada se mexe. Só as folhas negras no chão parecem ter vida, quando me aproximo. Vejo-as potentes, desenhos sombrios sobre o caminho de terra. Me aproximo da árvore, uma mais distante do que as demais, mais longe da calçada, da rua, dos bares, da civilização. Quase a abraço. Estamos nós. Sós. Somente ela e eu. E o silêncio. A não ser de uma buzina lá, outra cá, o cano de descarga de um carro, um grito raivoso do dono da picape potente que se atrapalha com o Uno a sua frente. Do deboche matreiro do homem de terno que zomba do cuidador de carro, do olhar disfarçado da mulher  ao porteiro invisível. Parece que o mundo acaba e eles se afastam também na noite escura. Mas são de lá, da civilização. Não de cá. Um rato passa rente aos meus pés. Ainda sinto o desconforto de ter torcido o pé no meio-fio. O rato para mais adiante. Acho que subirá na árvore. Pela primeira vez, eu o observo por uns minutos. Não me dá medo, nem asco. É um dos meus, do lado de cá. Tenho a impressão de que ele me olha, por um momento. Só por um momento. Logo desaparece na escuridão. Terá subido na árvore? No silêncio, também ouço gemidos. Canhestros. Quase imperceptíveis. Mas tenho certeza que ouvi. Também vejo sombras que se contorcem entre as árvores e se confundem com elas. Sinto cheiro de sexo e meu coração se conforta, quieto. Nada que se interponha entre os de cá e os de lá. Entretanto, agora, sinto um aperto no peito. Reconheço esta inadequação que me consome. Estremeço e meu coração dói. Não dói por mim, nem por meu silêncio, minha solidão, nem por esta pasmaceira escura que me envolve, entre sombras e luzes, sob árvores, a sofreguidão dos encontros e na companhia de ratos. Não. Meu coração sofre, oprimido, desabrigado, por eles. Pela civilização. 

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