Quando a vejo assim, meio de longe, observo o sol que a acompanha, iluminando por vezes, as janelas que se abrem ao alto. Assim, majestosa, envolvente. Não olho as suas sacadas da frente, próxima à praça, nem seu interior valioso. Poderia falar de sua porta quase solene, que se abre lentamente, como num filme, revelando aos poucos o seu interior, a escada de granito, o salão de leitura, o acervo suntuoso e raro, as estatuetas, as figuras, as pinturas e suas inúmeras salas e estantes abundantes. Poderia falar de suas sacadas, cujos olhares para a rua e à praça principal, denotaram por tanto tempo a descoberta de um mistério, que só se realiza em seu interior. Talvez apenas a representação da vida. Mas, hoje quero observá-la de um ponto estratégico, onde a avisto aqui debaixo, um pouco mais próximo da lagoa, ali pelo cais. Vejo-a de costas, mas sempre imponente e generosa. Parece que nos observa de cada canto que a vemos. Neste lado do sol, sinto que as paredes refluem, como as ondas no canal, absorvendo o calor e devolvendo a luz, plenitude que se mantém nos vitrais e revelam a beleza de seu porte. Entretanto, sinto que não faz parte da cidade. Não, não pertence ao canal que se desdobra azul escuro, lá na frente. Não pertence ao cais brilhante num dia radioso, ao povo que passa por ela, entretido em conversas ou atribulado em suas tarefas. Nem aos vendedores de peixe, nas bancas em dias de pesca, nem aos operários oriundos das lanchas, os ilhéus que se acercam dela, absortos com seus barcos, suas compras, seus encontros, suas despedidas. Nem aos alunos que passam, vindo de escolas distantes, visitando a cidade. Nem aos jovens perdidos em divagações, olhando ao longe a lagoa, fumando baseados nos entardeceres. Há um quê de nostalgia e beleza. Não, ela não pertence à cidade. Na verdade, a cidade pertence a ela, a cidade é acolhida por suas sombras, luzes, beleza, sobriedade e imponência, e todos nós por ela somos abrigados. Por todos sentimos a sua força e presença constante e é nela que depositamos nosso futuro e nossas aspirações de beleza, literatura, ciência, história e conhecimento. Nela que Rio Grande se inspira. Não nasceram juntas, mas sabemos que ela a abraça desde sempre. A Biblioteca Rio-grandense é o símbolo mais intenso em pertencimento de um povo, do que qualquer outra entidade. É ela, que envolve, acolhe e derrama alegria e vida à cidade.
Sinto que aos nos observar, há tanto tempo e do alto de sua sabedoria, inspira de alguma forma até aqueles que não a veem.

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