Sobrevida

Quisera fugir das vidraças que estilhaçam a vida. Quisera fugir das praticidades, do senso comum, do pensamento único que dissolvem a sanidade. Das paredes que envolvem, dos muros que escondem, das grades que cerceiam os espaços. Desviar o olhar da lâmina que decepa árvores, do sangue escorrido na própria seiva, dos desertos se formando, da natureza enferma. Quisera me envolver na música, na poesia, na arte, na literatura, no brilho dos olhos de quem observo, dos tinidos dos pássaros, dos rugir das ondas, do farfalhar do vento. No sabor da brisa matreira sob a árvore. Quisera nada ouvir. Sentir o silêncio nos poros da alma. A batida suave do coração. Os rios desvelando-se em fluídos pelo corpo, sintetizando a vida num vaivém silencioso. Uma alma quase escapando do corpo, que levita e se acolhe a si mesmo. E assim, tentando sobreviver à barbárie. 

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