Final de tarde. Sol tecendo últimos raios, misturando luzes e sombras, brilhos e tons azuis escuro. Noite que se anuncia cálida e sinuosa. Um sussurro aqui, um gemido lá, mais forte. Latidos ao longe. Não se sabe se nas sombras tudo fica mais fácil. A noite acorda, a tarde dorme. Gatos serpenteiam as cercas e quase não se os vê. Tons cada vez mais escuros. Luzes esparsas. Cidade que se afasta. Mas que some. Quisera sair deste barco e voltar para as esquinas, mesmo escuras e vazias, mesmo ouvindo os sons esquálidos da noite que se aproxima, mesmo sentindo arrepios na espinha, mesmo vendo tons cada vez mais confusos. Quisera sentir os meus passos, pés se mexendo, calçado espetando pedregulhos, esfriando no sereno das vielas embarradas. Quisera voltar. Mas seguir é alvorada. Seguir é o necessário e único. Não seguir é o poente. É interromper o fluxo. Seguir é sobreviver. Quisera tirar os pés do fundo do barco, deitar-me ao relento, sentir o cheiro da relva, da grama recém cortada, do parque iluminado em prata, nas noites intensas de verão. Quisera sentir-te tão perto, ouvir tua respiração quase sussurro, teu suspiro de paz quase morte, teu abandono do corpo quase alma. Quisera sentir teus lábios, tua voz, tuas dores e alegrias, teu sorriso e teu choro. Quisera estar contigo e experienciar tuas buscas. Mas estou aqui, neste barco que se afasta da cidade e do rumo. Que se afasta do porto, da fronteira, do país. Quisera ser só um ser comum e não um ativista maluco. Que o mundo caia aos meus pés e a vida doure, pincele e vigie teu futuro. Que o meu seja a descoberta e o teu, a plenitude. Que eu me salve, mas antes de tudo, que chegue ao destino. Aquele que procuro, não o que procuramos, que desejamos, que sentimos. O futuro que não é meu, nem teu. O futuro do mundo.

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