As pedras

Até as pedras desta cidade sabem onde são pisadas. Sabem do resvalar da sola em suas costas, a biqueira do sapato, a ponta do salto. Nada fica impune. Mesmo as formigas amortecem com a queda, só elas ficam ali presas e sepultadas, até que um arqueólogo surja para investigar seus vestígios.  

Às vezes, me sinto como as pedras, assim presas e indefinidamente esquecidas, subjugadas por um passado inerte que as consome. Quando o sol as aquece e o calor dos pneus as cobre de fuligem e sujeira, toda a estrutura aos poucos vai demonizando, deixando-as presas ao inferno a que são submetidas. Por que não chove agora? Por que o frio não volta, talvez fosse mais humano. Mas quem seria humano com as pedras?

Este peso nas costas, este fardo que me consome, como se todas as vértebras fossem partidas, uma a uma, brandindo entre si, estalando, transformando-se. Quisera uma brisa, muito mais que uma brisa, um vento forte, que levasse toda a fuligem, que limpasse as bordas, as margens estreitas, que esfriasse o casco. Um vento que levasse as dores, as trevas, as brumas, os medos. Um vento de assobio, de som tangente, fino, agudo, distante. Um vento quase alarme. 

Mas nada, as pedras não se mexem. O vento não zune. A chuva não cai e meus cabelos permanecem inertes, sem qualquer movimento. Que venha o arqueólogo e investigue todas as memórias. Que o mundo ressurja, nem que seja assustador e infernal, como o das pedras. 

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