Os balões translúcidos

Observei os prédios antigos. Alguns deteriorados, quase em ruínas, outros com fachadas potentes, embora tivessem paredes desbotadas, tinta escorrida na umidade, fuligens velhas. Ar abandonado. Mas, por um momento, meus olhos se enveredaram nas frestas, como se um feixe da luz do sol entrasse por elas, iluminando determinados detalhes, clareando assoalho de madeira vermelha, investindo num cenário de outrora. Ouvi sons, pequenos suspiros, passos em direção à janela, um olhar atento à rua. Um assoprar de pequenos balões, borbulhas de espuma num canudo, elevando as pequenas bolas translúcidas por entre as cortinas, escapando de suas curvas, enveredando pela rua, passando por copas de árvores tão próximas à sacada de ferro, descendo lentamente pela calçada, umas ainda ficando lá, absortas até se consumirem pelo vento ou pela proximidade de um galho seco. Muitas enfeitando chapéus, cabelos bem cortados, bonés e até na mão de uma criança, que olhou para cima, extasiada. Os pequenos balões subindo pelo vento, um deles retornando a origem. Chegando lá em cima, na mão doadora, nos olhos perscrutadores, no sorriso inocente e arguto, até ser puxado pelo ombro para dentro, tentando voltar-se, sorrir e brindar aquele momento. Passos voltando para o interior da casa, mas a plenitude do tempo ficando eternizada na memória. 

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