Por que temer a travessia?

Não penses que a borboleta baterá trezentas vezes as asas aos teus ouvidos, nem que as flores vicejarão impunes, mesmo que as regues e cuides todos os dias de tua vida. 

Um dia te cobrarão pela beleza que expressam. 

Um dia exigirás que seu perfume abranja um espaço maior e que seus brotos e ramos pululem abrangendo tua paisagem interior. 

Nunca pensaste que a vida viraria de ponta-cabeça, que o mundo que corria lá fora, corria muito mais veloz dentro de ti mesmo? 

Nem percebias o quanto teu espírito sugava o néctar de cada flor e as examinava muito mais do que as borboletas ou quaisquer outros insetos. 

Por certo, ficavas plasmado como uma folha tenra, mas sem vida, caída ao tronco da árvore, próxima à raíz, embora sem qualquer ligação com a seiva-mãe. 

Foi num salto que a vida te mostrou sem ressalvas o que eras e o que no fundo já sabias. 

Foi num salto que mergulhaste no nada, um vazio tão grande que pensaste em desaparecer. 

Que nada! 

Aí estava o furo da placenta, o regurgitar do prazer contido, o explodir pro macho, pra fêmea, pro bicho, pra flor. 

Por que temer esse riso medonho, a achincalhada travessia, se teu destino começa agora? 

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