Viver a história

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Pensar num livro que povoou a minha infância me faz reviver sensações intensas, talvez saudade do período das descobertas, de aguçar a curiosidade em torno de qualquer tema. E, no caso, um tema de história, uma história romanceada, como se fazia na época. Trata-se do livro “Tiradentes e o aleijadinho: as duas sombras de Ouro Preto”, de Sérgio D. T. Macedo, um autor que escrevia para a juventude. Atualmente, pouco se sabe deste autor, embora nos sebos virtuais e em livrarias ainda existam algumas obras disponíveis. De todo modo, aquele mundo criativo, no qual passávamos a amar os heróis e entender a narrativa histórica como uma ocorrência de acontecimentos extraordinários, talvez nos tenha legado o desejo de perscrutar a sociedade com olhos mais afoitos, mais incisivos, mais instigantes. Não aqueles olhos de criança, cheios de expectativas e curiosidade, mas os de quem busca uma forma de encontrar se não heróis, pelo menos, cidadãos de caráter. Eram tempos de ilusões, de buscas, de alegria. Tempos em que mergulhávamos na leitura com a ansiedade de quem hoje navega na internet. Mas havia muito mais do que a interatividade virtual da atualidade. O que contava era o relacionamento com o próximo, baseado nos bons hábitos. A aprendizagem se dava pela profusão de ideias que emanavam dos livros e das discussões em sala de aula. Não éramos santos, em absoluto, mas praticávamos com intrínsica sabedoria, o ato de viver. Nossa imaginação voava em saltos e se perdia em sonhos, tal como o parágrafo que encerra o livro e sugere quase num sussurro, ao nosso ouvido, a trajetória dos personagens, ali, tão próximos de nós. “Então, se a gente fechar os olhos um instante e deixar o pensamento recuar para muito longe, para bem distante no tempo perdido, verá muita coisa interessante acontecer… Verá que pela rua detrás da matriz de Antônio Dias, passa um escravo forte, carregando o Aleijadinho todo embuçado na sua capa escura ; verá que se acendem as luzes na casa de Marília e ao som da “cavatina” os pares rodopiam no salão imenso, enquanto as moças riem, felizes; verá, que na ponte dos Contos, o poeta Gonzaga parou um instante, declamou um verso, deixou escapar um suspiro e continuou a caminhar, imerso em profundas reflexões; verá Bárbara Heliodora, toda vestida de preto, rindo um riso manso, suave, delicado, enquanto vai desaparecendo na curva daquela ruazinha íngreme, tão íngreme e tão alta, que parece o caminho do céu…” Era assim que a gente aprendia história.

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